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Filhos do Ultramar.

por Duarte Génio, em 18.03.17

                                   MARCO 2010 001

 

Setembro 2004,uns dias antes de ser pai pela primeira vês,estava ao telefone com o meu pai...morava em Rhode Saint-Genèse na Bélgica...

 

Eu:Pai para mim não é fácil de lhe dizer o que lhe vou dizer,mas alguém tem de o fazer,calhou-me a mim,e fez-se um silêncio ensurdecedor.

 

Meu pai: é muito grave?

 

Eu: infelizmente é,não vai ser fácil.

 

Meu pai: oh pá diz lá o que se passa......mais silêncio...

 

Eu: bom você tem um cancro em fase terminal.....

 

Meu pai: não há mesmo hipóteses ?

 

Eu: sempre existe,mas depende de si ,vai depender de você,da sua força de vontade,sei lá disse o que se diz numa altura destas,tentei ser diplomata e não o magoar ou assustar,sabendo que iria ser complicado...

 

Ao mesmo tempo estava fodido,logo agora que tinha deixado o alcoolismo ao fim de 30 anos,acontece esta merda.....estou a transcrever palavra por palavra o que me passava na alma na época,por isso desculpem-me as palavras grosseiras,mas genuínas...

 

A conversa terminou um pouco depois,mas até à sua morte no inicio de 2005,as conversas foram muitas quase diárias...foi nesta altura da minha vida,que tive de tomar uma das decisões mais difíceis da minha existência....pegar num avião e ver o meu pai doente,ou ficar quieto e guardar uma imagem intacta de um ser humano ,meu pai neste caso normal de um ser com os quilos normais,cor normal,cabelos normais etc..

 

Optei por não sair de Rhode até ao seu funeral,foi uma decisão que tomei e confesso voltaria a tomar de novo,foi a minha decisão e tenho de viver com as consequências para o resto dos meus dias..mas tudo na vida tem um preço,e eu decidi pagar esse preço,se calhar muito elevado para uns e uma protecção para outros,como foi o meu caso,hoje não me arrependo e vivo em paz comigo mesmo.

 

Uma das conversas que tivemos em Dezembro de 2004 marcou-me,e é aqui onde começa a mensagem desta historia verdadeira com todos os factos reais,o que pode chocar a minha família principalmente os meus irmãos......tinha algumas perguntas encravadas na garganta,e queria saber respostas antes da sua morte,parece egoísta da minha parte,mas eu sou esse ser curioso,que queria saber a razão pela qual este ser ,meu pai nos fez sofrer tanto especialmente a mim.....

 

Eu: pai,posso fazer algumas perguntas que me atormentam há muito tempo?

 

Meu pai: podes pá se eu poder respondo...

 

Eu: porque me fez tanto mal,tanto ódio,tanta porrada enfim porquê?

 

Meu pai: primeiro silêncio e depois umas poucas palavras;oh pá foi a "puta da vida".

 

Eu : porquê foi para os Pára-comandos?

 

Meu pai: eu fui porque gostava,era aventureiro e paguei caro demais a minha escolha,mas fazia tudo igual.....aqui o meu mundo parou,fiquei chateado com a resposta....."o meu pai foi para o Ultramar em 1974 e voltou em 1975 a Lisboa como "Deficiente das Forças Armadas",submetido a 7 intervenções cirúrgicas a um braço que o deixou desfigurado,e mesmo assim responde-me;fazia tudo de novo...

 

Eu: esta pergunta foi dura e cruel da minha parte, se calhar um pouco desmedida e irresponsável ou insensível......; não tem medo de morrer?....esta pergunta tinha a ver com algo que me perturbava....depois de saber que tinha cancro parecia-me a mim que para ele era indiferente,estava-se nas tintas,não mostrava medo nas palavras,e para mim metia-me um pouco de medo a sua reacção natural em frente de uma morte anunciada...

 

Meu pai :oh pá não ,não tenho medo da morte.....silêncio...e depois a resposta que me faltava,a resposta natural para quem esteve no Ultramar,por isso nunca a poderia compreender....oh pá eu morri há muitos anos atrás em Angola.....nem sei como continuei a conversar,acho que não estava a assimilar bem as coisas no momento,e tudo foi tão rápido naquela conversa que parti para a ultima pergunta...

 

Eu: nunca contou o que aconteceu em Angola,mentiu sempre,fugiu sempre do assunto,eu mesmo lhe perguntei varias vezes o que lhe vou perguntar agora,e agora acho que tenho o direito de saber.....o que é que lhe aconteceu em Angola,como é que isso aconteceu,preciso de saber.....precisava mesmo de saber,talvez para o desculpar penso eu...

 

Meu pai : muito silêncio ....mas por fim tive direito a umas palavras,não tive direito a um pedido de desculpas,só a quatro palavras que caíram como uma bomba na minha cabeça; essa historia levo-a comigo... e desliguei...

 

O que se passou no Ultramar com o meu pai,até hoje não sei,é classificado secreto para as Forças armadas portuguesas...ainda não desisti da ideia de um dia saber a verdade,mas por enquanto fica a mágoa de saber,que milhares de portugueses que estiveram no Ultramar deixaram um sofrimento enorme nos familiares,e ainda mais magoado com o País que me viu nascer,pois tenho a certeza que esses homens que voltaram do Ultramar não foram reintegrados na sociedade portuguesa,como deveriam ter sido,ao invés recebiam uma reforma que estouravam nos cafés a embebedarem-se,para com certeza esquecer o que viveram no Ultramar..

 

Já lhes chamei "Vidas ceifadas",Sonhos roubados e agora Filhos do Ultramar...hoje mesmo sem saber a resposta,perdoei mas não consigo esquecer que sou filho de um pai,que teve os mesmos sonhos que eu um dia,e que lhes foram roubados em nome nem sei de quê nem porquê....em nome de Portugal é muito curto como resposta...

 

Esta conversa de 2004,está aqui a ser desvendada hoje passados estes anos,espero que os meus irmãos me desculpem,sei que deveria ter falado mais cedo,mas como me escreveu um amigo um dia;há histórias que não são só nossas...achei por bem escrever agora sobre o assunto,porque também acredito que existe um momento certo para tudo na vida,chegou agora.....

 

Dedico este texto,a todos os portugueses que pereceram em nome de Portugal,assim como a todos os portugueses Deficientes das Forças Armadas,a todos os familiares que sofreram e ainda sofrem com a desgraça que foi o Ultramar,sem nunca esquecer o ressentimento que tenho em relação a Portugal,esse vai ser mais difícil de esquecer,mas está perdoado....

 

Fui uma das vitimas indirectas do Ultramar,mas isso é passado e a vida está no presente,e o presente de hoje constrói o futuro de amanhã,por essa razão confio na vida e sei que hoje o meu pai está bem,está em PAZ..o meu pai acabou por falecer em 2015 um mês depois desta nossa conversa,um homem com uma inteligência bem acima da média.....esse herdo ele deixou-mo e agradeço-lhe .....no funeral nem uma lágrima verti e esse não era eu....eu sou um ser sensível que aprecia o seu semelhante,e que mostra com facilidade as suas emoções...espero ajudar outras pessoas com a minha história de vida,e sobretudo deixar uma mensagem forte,para quem está ainda hoje a sofrer...."Tudo que não nos mata ,torna-nos mais fortes....

 

Agradeço ao meu anjo da guarda,que sempre me guiou na minha vida....sinto gratidão por existires e estares sempre ao meu lado.

 

PS: À memoria do meu querido pai,José Teixeira como era conhecido .....Pára-Comando,tropa na Serra das Meadas em Lamego e destacado em Luanda Angola em 1974...."O corpo físico perece,mas a Alma é eterna".

 

Duarte Génio. 2017.

 

 

 

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publicado às 10:33

Hora de partir.

por Duarte Génio, em 06.03.17

                               MARCO 2010 001

 

 

"O tempo voa" dizia a minha professora da primária,e eu achava que era "louca".

 

Hoje não sou louco,mas o tempo voa mesmo.Quando cheguei a França,pensei ficar um par de anos e que tal mudar de vida...."a vida mudou-me",e hoje 7 anos depois até eu fico espantado com a minha continuidade...no entanto,o tempo voa,mas ainda me dá a sensação que estará na hora de partir...."e bem mais importante de recomeçar".

 

Tem sido extraordinário viver por cá,a vida foi de uma gratidão que nem consigo medir,a minha vida prosperou como nunca antes,abençoou-me com todos os meus desejos,nem um ficou para trás....apanhou-me de surpresa outras vezes,mas no final considero-me hoje um ser humano abençoado pela vida.

 

Essa mesma vida que um dia tira,mas persistindo com fé,esperança,garra,determinação,trabalho,bondade,sorte e compaixão é capaz de nos dar tudo aquilo que nem sonhamos...."

 

Quando a vida vai boa ,aproveita ao máximo,quando estiver menos boa ,transforma-a e quando não a conseguires transformar,transforma-te....

 

E no meio de palavras soltas ,livres como a paz interior,ficou a certeza que na vida há horas de chegar e momentos de partir....confio na vida,sou grato por tudo que a vida me ofereceu,e sei que neste tempo que voa,a vida vai continuar a ser abundante e próspera em todos os domínios da minha vida,porque eu acredito.

 

Dedico a todos os seres humanos que mudam de vida,de comportamentos,de visão do mundo....

 

Abraço especial a todos os emigrantes,de todos os continentes,culturas e raças....a mudança não é fácil,mas vale a pena.

 

Duarte Génio.       2017.

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publicado às 21:08


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